Crise sanitária agrava crise do transporte público na região metropolitana

Em meio a grave crise sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus, trabalhadores e trabalhadoras da região metropolitana de Goiânia se revoltam com a superlotação no transporte coletivo

Escrito por Nícolas dos Santos. Educador Popular, militante do PCB e da UJC, estudante de biologia na UFG.


Desde a chegada da pandemia do novo coronavírus ao estado de Goiás, que  tem deixado centenas do doentes e um rastro dezenas de mortes, mesmo que ignoremos a subnofiticação, o governo estadual decretou um conjunto de medidas que teriam como objetivo reduzir a circulação de pessoas nas ruas como estratégia de combate a propagação da Covid- 19. Entre as medidas de reforço da quarentena destacaram-se a suspensão das aulas na rede pública estadual e a paralisação de atividades econômicas não essenciais (feiras, shoppings, setores do comércio, etc).

Apesar do decreto, podemos observar que nas últimas semanas, por conta de uma série de fatores, as medidas de contenção e isolamento social foram afrouxadas. Vemos também que nos principais terminais de toda região metropolitana, a frota de ônibus ofertada pelas empresas que gerenciam a rede de transporte coletivo vem diminuindo exponencialmente. Segundo relatório da Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE- GO), entre os dias de 23 de março e 6 de abril, ocorreu em toda região uma redução de 50% da quantidade de ônibus circulando por hora no início da manhã e nos finais de tarde, isto é, nos horários de pico, onde o fluxo de pessoas circulando é maior. 

A redução drástica na frota de ônibus vem causando graves transtornos e gerando revolta nos trabalhadores que utilizam o transporte público

Mesmo com a promulgação do decreto estadual n° 9638 de 20/03/2020 que visava limitar a lotação no transporte coletivo e instituir que os veículos só poderiam transportar os passageiros sentados, ainda vemos terminais e pontos de ônibus superlotados, trabalhadores e trabalhadoras viajando em pé, veículos velhos e que não foram devidamente higienizados, entre outros problemas que contradizem as supostas preocupações do governo e das empresas com o agravamento da crise sanitária.

Essa situação desastrosa está gerando profunda revolta na classe trabalhadora goiana. Na última terça-feira (21), trabalhadores que estavam aguardando o transporte coletivo em um ponto na BR- 153, na região do Bairro Expansul, em Aparecida de Goiânia, fecharam a via paralela da rodovia após aguardarem horas pelos ônibus, que já chegavam lotados e não paravam. Como retaliação a Polícia Militar foi chamada para reprimir a manifestação espontânea da população indignada com o descaso das empresas. Outro caso similar a este ocorreu na última segunda-feira (27), no Setor Bueno, em Goiânia, quando trabalhadores bloquearam a Avenida T-9 em protesto contra a falta de ônibus. Novamente, a PM foi convocada para conter os manifestantes.

As medidas que vêm sendo tomadas em relação às situações enfrentadas na região são, no mínimo, contraditórias e classistas. De um lado os empresários e parasitas que gerenciam o transporte coletivo vem infringindo as medidas judiciais impostas para reduzir as aglomerações, negligenciando quaisquer preocupações com a saúde pública e mesmo assim não são punidos. De outro lado, a classe trabalhadora que paga caro para utilizar os péssimos serviços prestados pela companhia de transporte é reprimida pela polícia quando reivindica o mais básico direito de acesso ao serviço. Trata-se de mais um descaso do poder público e de suas entidades de fiscalização.

Além do mais, é interessante ressaltar que diferente do que as empresas dizem, a redução da frota de veículos circulando não se deu pela simples redução na demanda de passageiros- comparada com a mesma época do ano passado. A redução da frota se deu fundamentalmente por uma opção unilateral das empresas, legitimada pelas prefeituras, que tem como objetivo garantir a manutenção de suas já gigantescas taxas de lucro. A lógica dos tubarões que gerenciam o transporte coletivo é bem simples: quanto menos ônibus circulando e quanto mais lotados estiverem, mais lucro. 

A oferta do serviço de transporte parte de uma necessidade extremamente objetiva de milhares de trabalhadores que, ou não possuem outras formas de transporte ou não tem condições de custear as viagens com seus veículos particulares, por conta dos altíssimos preços dos combustíveis. Então para as empresas, mesmo com as garagens repletas de ônibus disponíveis, quanto menos veículos em atividade, menores são os gastos com manutenção, limpeza e combustível, e quanto mais lotados estiverem, maior suas arrecadações financeiras por passageiro nos ônibus em circulação. 

Além disso, outra razão para a redução da frota é que está em curso um movimento político promovido pelas empresas no sentido de pressionar o governo do estado e influenciar a opinião pública pelo fim do isolamento social. Na sede pela manutenção de seus lucros os patrões colocam as preocupações com a vida da população em escanteio. Como os trabalhadores e trabalhadoras não possuem outra opção de transporte, acabam se rendendo as péssimas condições impostas pelos mafiosos dirigentes das empresas e aos poucos, em certa medida, fazem coro com o discurso de fim da quarentena. 

A postura dos governantes reforça a atitude dos patrões

Em um momento tão grave enfrentado pela população goiana, especialmente pelos trabalhadores mais pobres e moradores das periferias de toda região metropolitana, que já sofrem com a falta de auxílio financeiro por parte estado (outro reforço ao discurso de fim do isolamento) e com os riscos de serem infectados, as prefeituras e o governo estadual deveriam assumir uma postura mais firme e exigir das empresas que 100% da frota de ônibus estivessem circulando e que todas as precauções de higienização estivessem sendo tomadas. Infelizmente, o que vemos é o contrário. As prefeituras, em especial as de Goiânia e Aparecida de Goiânia, dirigidas pelo MDB, demonstraram-se até este momento totalmente omissas. Se ausentaram, como de costume, do papel de acatar as demandas da população e traduzi-las em medidas reais. Os grandes empresários chantageiam a população e nada é feito.  

Ano após ano a tarifa do transporte aumenta sob a justificativa de que serão realizadas melhorias na prestação do serviço, que mais ônibus serão adicionados à frota, a superlotação será reduzida e novas linhas serão criadas para alimentar as regiões com pouco acesso, mas o que de fato é visto pela população é que os discursos inflamados não se transformam em ações práticas e concretas. Os patrões e governantes em seus carros importados e de luxo pouco se preocupam com as demandas dos que mais necessitam. As empresas mentem, os governos consentem e o povo continua sofrendo. 

Transporte Público não é mercadoria!

A máfia dos transportes entende que o transporte público é uma mercadoria, por isso seus objetivos ao prestar o serviço não visam nenhum tipo de retorno social, mas apenas geração privada de lucros para seus poucos acionistas, diretores e políticos que os garantem concessões de gestão. Para nós, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o transporte público é um direito. E, como direito, deveria ser de amplo acesso ao conjunto da população, gratuito e estatal.

Sendo assim, é preciso que seja colocado na ordem do dia a reivindicação de estatização do sistema de transporte coletivo, com tarifa zero, e que este esteja sob controle e gestão de conselhos populares, democraticamente eleitos a partir dos bairros. Também, para reduzir o protagonismo dos mafiosos que mandam na RMTC (em transição para a Redemob Consórcio) é fundamental que seja diversificado as matrizes de transportes coletivos em todo o estado, por meio da criação de linhas de metrô, trens, trólebus, bondes elétricos, etc. Outra medida importante é que os contratos e licitações das empresas privadas que gerenciam o transporte em Goiânia e região sejam auditados e expostos em transparência para indicar a real arrecadação lucrativa dessas empresas e refutar a histórica alegação de que estão situação de falência, discurso que é utilizado ano após ano, e que na verdade é apenas mais uma chantagem barata feita para iludir o povo goiano.

Por fim, em caráter emergencial, acreditamos que seja necessário a redução das tarifas do transporte até que a pandemia acabe. Reforçamos que o decreto estabelecido desde a última segunda- feira (27) pela prefeitura de Goiânia, que prevê escalonamento  de horários para o início de expediente comercial é uma medida paliativa inútil, logo a centralidade da reivindicação deve ser que 100% da frota de ônibus seja colocada em circulação, para que as aglomerações sejam evitadas. Só a luta organizada da classe trabalhadora goiana pode dar fim a máfia do transporte e garantir a conquista dos direitos que sempre nos foram negados!

TRANSPORTE PÚBLICO NÃO É MERCADORIA!

TARIFA ZERO, ESTATIZAÇÃO, CONTROLE DO TRANSPORTE NA MÃO DA POPULAÇÃO!

POR UMA POLÍTICA QUE DÊ CONDIÇÕES À TRABALHADORES E TRABALHADORES A PARTICIPAR DO ISOLAMENTO SOCIAL!

A VIDA VEM ANTES DO LUCRO!

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