As interfaces entre o intelectual e a cultura

Breves apontamentos sobre o teatro de Vianinha

Escrito por Maria Abadia Cardoso

FotoMontagem 1 – bustos de F. Engels (canto esquerdo superior), K. Marx (canto direito superior), V. Lenin (ao centro), B. Brecht (canto esquerdo inferior) e O. Vianna (canto direito inferior)

A interface entre arte e política mobilizou inúmeras reflexões. Variadas em seus aportes teóricos, temáticos, temporais e, fundamentalmente, históricos, as análises procuraram demarcar as distinções entre forma e conteúdo, ética e estética, obras engajadas e não engajadas, evidenciando assim disputas interpretativas sobre as possibilidades dos objetos artísticos conseguirem “materializar” as contradições impostas do ponto de vista histórico. Se esta visão mais ampla se impõe, faz-se necessário circunstanciá-la num tempo/espaço específico.

Em momentos de acirramento e de evidência de contradições históricas, em que se tornam claras as desigualdades sociais e as diversas tentativas de fechamento do espaço público, é certo que os campos de produção/divulgação de conhecimento são os primeiros a se constituírem em arenas de disputa. Nestes contextos, não aleatoriamente a Arte, a Ciência e a Educação são áreas em constante ameaça. Elemento este importante para refletir sobre o Brasil entre os anos de 1960 e 1970. Em termos de perspectiva econômica, o denominado “milagre econômico” foi uma falácia e permitiu uma ampla concentração de renda; do ponto de vista político, o autoritarismo e o arbítrio desdobraram num esfacelamento do espaço público e de institucionalização da censura e da violência; para a cultura, o “legado” também foi extremamente nefasto.

Ao mesmo tempo, a rápida contextualização não pode excluir que este tempo/espaço tornou-se o laboratório histórico para uma vasta produção musical, literária, dramatúrgica, cinematográfica e crítica. Mobilizando diferentes linguagens, múltiplas em seus vieses estéticos e políticos, as obras produzidas na/sobre a referida temporalidade procuraram demarcar as contradições e os desafios impostos. Assim, sobre os mais variados títulos, na música (Para não dizer que não falei das flores, Apesar de você), no teatro (O Rei da Vela, Arena conta Tiradentes, Rasga Coração), no cinema (Quase dois irmãos, O que é isso, companheiro? O ano em que meus pais saíram de férias, Vlado: 30 anos depois, Os Inconfidentes) narrativas procuram evidenciar sujeitos, lugares, percepções sobre o tempo e, principalmente, perspectivas de intervenção, ou seja, a fronteira entre arte e política tornou-se tênue.

Paralelamente às obras artísticas e culturais, surge também uma vasta produção acadêmica que as elege como objeto. Por meio de diferentes fontes, temas, e conceitos, os pesquisadores construíram seus recortes e campos interpretativos. Em suma, o denominado “lugar” de inteligibilidade aparece eivado por uma vasta e crítica abordagem.

Em seu conjunto, as percepções em tela são extremamente válidas para situar a trajetória de Oduvaldo Vianna Filho. Se, dentre as linguagens artísticas, o teatro procurou não apenas ler/interpretar a realidade brasileira, mas estabelecer intervenção, a dramaturgia de Vianinha esteve em sintonia com tal perspectiva.

Passando por diferentes instâncias de cultura, tais como Teatro Paulista de Estudante (TPE), Teatro de Arena, Centro Popular de Cultura (CPC), Teatro Opinião e elaborando uma variada dramaturgia, Vianinha deixou uma produção em que o trabalho intelectual e a dimensão da vida social aparecem permeados de historicidade.

No que tange ao Teatro de Arena, conforme evidencia a historiadora Rosangela Patriota, a trajetória do grupo mostra-se constituída e constituidora em diferentes “lugares”. A exemplo, o rememorar de seus ex-integrantes, como José Renato, G. Guarnieri, Paulo José, Oduvaldo Vianna Filho e Augusto Boal. É certo que cada um desses artistas adotou diferentes estratégias, momentos e perspectivas no ato de rememorar e, de maneira geral, suas narrativas trouxeram à tona os mais variados aspectos da trajetória do grupo, tais como os anseios alimentados no seu interior, a formação do Teatro Paulista do Estudante (TPE), o estímulo à dramaturgia nacional, as perspectivas estéticas e políticas do Arena frente à conjuntura brasileira, a teoria teatral, o significado histórico do Arena, etc. No que se refere ao posicionamento de Vianinha e Boal, a seguinte constatação é extremamente importante: “A construção desta perspectiva cronológica, temática, política e artística do Arena deveu-se, e muito, aos textos de Vianinha e de Boal, que se tornaram bases das interpretações historiográficas confeccionadas a posteriori”. (PATRIOTA, 2009)

O Teatro de Arena ocupa lugar de destaque na historiografia do teatro brasileiro e é indubitável a sua constituição como espaço de formação para toda uma geração de atores e dramaturgos. Por meio das atividades desenvolvidas, especialmente os Seminários de Dramaturgia, havia uma interface entre os estudos de temas nacionais, teorias teatrais, sociais e filosóficas; as quais, na perspectiva do grupo, inspirariam uma dramaturgia articulada aos problemas vivenciados no Brasil. Do ponto de vista estético, os ciclos de estudo das obras de Bertolt Brecht e Erwin Piscator foram desenvolvidos. (SAID, 1989)

A atuação de Vianinha como ator e dramaturgo no Teatro de Arena permitiu também o amadurecimento de um olhar crítico para as atividades do próprio grupo. Divergências surgiram no modelo administrativo implantado pelo então diretor José Renato. Com intuito de não se desligar do grupo, Vianinha sugere, em 1960, que a companhia levasse as suas apresentações para outros espaços, tais como, sindicatos, partidos, instituições estudantis, etc. É neste contexto que se delineia o contato do dramaturgo com os intelectuais do ISEB e, com a parceria de Carlos Estevam Martins, foi produzida a peça A mais valia vai acabar seu Edgar, obra que o conceito marxista “mais valia” é apropriado didaticamente para a linguagem cênica. Do ponto de vista estético fez se uso de slides e cartazes.

As concepções construídas e amadurecidas por Vianinha sobre o teatro como lócus de politização para temas brasileiros o levam a romper com o Teatro de Arena. Contudo, aproveitando as mobilizações em torno da temporada de A mais valia, ele se articula com Carlos Estevam Martins e Leon Hisrzman e propõe à recém-eleita diretoria da União Nacional dos Estudantes (UNE) a criação de um curso de filosofia ministrado pelo professor José Américo Mota Pessanha. Em seu conjunto, as referidas atividades, extremamente sensíveis à efervescência política e cultural dos anos de 1960, foi o mote para que estudantes, artistas e intelectuais amadurecessem as perspectivas para a criação do Centro Popular de Cultura (CPC). (GARCIA, 2004)

Em seu texto Do Arena ao CPC, Vianinha expõe os principais motivos que o levam a romper com o Teatro de Arena, dentre outros, a limitação de infraestrutura física como o espaço com apenas cento e cinquenta lugares: “[…] não atingia o público popular e, o que é talvez o mais importante, não podia mobilizar um grande número de ativistas para o seu trabalho. A urgência de conscientização, a possibilidade de arregimentação da intelectualidade, dos estudantes, do próprio povo, a quantidade de público existente, estavam em forte descompasso com o Teatro de Arena enquanto empresa. Não que o Arena tenha fechado seu movimento em si mesmo; houve um raio de ação comprido e fecundo que foi atingido com excursões, com conferência, etc. Mas a mobilização nunca foi alta porque não podia ser alta. E um movimento de massas só pode ser feito com eficácia se tem como perspectiva inicial a sua massificação, sua industrialização”. (VIANNA FILHO apud PATRIOTA, 1999, p. 102)

Assim, a criação de uma arte popular e engajada aos problemas do país foi o mote da criação do CPC. Aglutinando artistas, intelectuais e estudantes, o grupo elegeu como foco o campo de luta dos próprios movimentos sociais e da forte atuação da esquerda no momento. Um movimento de intensa mobilização artística promoveu campanhas de alfabetização inspiradas no método Paulo Freire, shows ambulantes, peças de teatro nas portas das fábricas e filmes. As proposições estéticas, políticas e artísticas do dramaturgo Brecht e do encenador Piscator serão lidas e contextualizadas na busca do estabelecimento de um teatro que trouxesse a politização da vida social. (OLIVEIRA, 2011)

Ao mesmo tempo em que Vianinha produzia e atuava nestes espaços, lançando perspectivas para a arte e para o teatro no Brasil, o seu olhar, fincado nas contradições sociais, lhe permitiu também o desenvolvimento de uma dramaturgia solidamente ancorada na realidade brasileira, sendo esta, em sua leitura, não estanque e contraditória. Dessa forma, as variadas referências intelectuais que permearam o cenário brasileiro desde os anos de 1950 e 1960, ambientadas na dinâmica histórica, tornaram-se o mote para a sua arte teatral, ou seja, as transformações na realidade histórica são reelaboradas em sua dramaturgia.

É justamente nesta perspectiva que se compreende a multiplicidade temática presente em suas peças. Dentre outras, a ascensão social e os interesses econômicos presentes no futebol são abordados, respectivamente, em Bilbao, Via Copacabana (1957) e Chapetuba Futebol Clube (1959). O combate ao imperialismo aparece em Brasil – Versão Brasileira (1962). A questão rural adquire espaço em Quatro Quadras de Terra (1963) e Os Azeredos mais os Benevides (1964). Posterior ao golpe de 1964, Moço em Estado de Sítio (1965) aborda as contradições do intelectual frente às circunstâncias históricas. Temas como indústria cultural e publicidade são os motes de A longa noite de Cristal (1969), Corpo a Corpo (1970) e Allegro Desbum (1973). Conforme aponta Patriota, “[…] se no período anterior a 1964 as análises da esquerda interpretavam o momento como uma conjuntura revolucionária, a dramaturgia de Vianinha traduziu estas expectativas em peças engajadas que incitavam à organização social e à participação política do conjunto da sociedade brasileira. O ano de 1964, entretanto, será um marco em sua dramaturgia, já que um projeto de sociedade e de luta esvaiu com a tomada de poder pelos militares. A luta teve de ser redefinida, e Vianinha também se redefiniu. Esta observação, que à primeira vista parece tão óbvia no seio da militância de esquerda, ganha uma conotação importantíssima nas análises do seu teatro. Isto pode ser dito porque o reconhecimento da derrota política e a necessidade de redefinição das propostas estéticas evidenciam que este trabalho não tinha uma perspectiva “evolutiva”, pois se o engajamento e a identidade política com o PCB se mantiveram, as temáticas, as estruturas dramáticas e a construção das personagens foram reavaliados”. (PATRIOTA, 1999, p. 137)

A depender do momento histórico, cada um dos espaços em que o dramaturgo atuou foi relido à luz de questões de ordem política e ideológica. Da mesma forma, a sua obra, justamente por fazer uma mediação constante entre cultura e política, também foi alvo de diferentes leituras e apropriações. Essa perspectiva é válida tanto para as suas peças, encenadas e reapropriadas em momentos específicos, quanto pelos seus escritos sobre a arte e a cultura brasileiras.

É certo que, no limite das questões propostas para esta reflexão, não é possível esgotar a pertinência dos debates suscitados. Todavia, dada à validade dos seus escritos, faz-se primordial pensar a atualidade e a necessidade de revisitar suas ideias no tempo presente. No momento em que a arte, a cultura e a ciência se encontram em “risco”, faz-se primordial demarcar o “lugar de inteligibilidade” sobre sua produção e atuação.


Referências:

PATRIOTA, Rosangela. Vianinha: um dramaturgo no coração de seu tempo. São Paulo: Hucitec, 1999.

PATRIOTA, Rosangela. História, memória e teatro: a historiografia do Teatro de Arena de São Paulo. In: ______. MACHADO, Maria Clara Tomaz. (Orgs.). Política, cultura e movimentos sociais: contemporaneidades historiográficas. Uberlândia: EDUFU, 2001. p. 171-210.

GARCIA, Miliandre. A questão da cultura popular: as políticas culturais no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). Revista Brasileira de História. v. 24, n.47, São Paulo 2004.

OLIVEIRA, Sírley Cristina. O encontro do teatro musical com a arte engajada de esquerda: em cena, Show Opinião (1964). 2011. Tese. (Doutorado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2011.

SAID, Ana Maria. O Projeto Político Pedagógico do Teatro de Arena de São Paulo. Dissertação. Mestrado em Educação. Faculdade de Educação. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1989.

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